No final do dia 12 de agosto, a sombra da Lua atravessará a Península Ibérica, proporcionando o maior eclipse solar observado em Portugal desde 1900, que coincide com o único total desde então. Apenas uma pequena região do nordeste transmontano ficará na faixa de totalidade; no restante território o eclipse será parcial. A única fase de um eclipse solar que pode ser observada sem proteção adequada é a totalidade. Fora dessa faixa ou, para quem está nela, antes e depois da totalidade, o eclipse é parcial e, por menor que seja a percentagem de superfície do disco solar visível, a observação segura exige sempre proteção adequada durante todo o fenómeno. Descreveremos a seguir os cuidados que devem ter-se durante o extenso período de ocultação parcial do Sol.
Em Portugal Continental, só numa pequena região do Parque Natural de Montesinho, a este de Rio de Onor, Bragança, o eclipse será total, isto é, a Lua cobrirá totalmente o disco solar. O início da totalidade ocorre às 19:30 locais e dura menos de 30 segundos. Dado que a região de totalidade se insere numa zona protegida, foi definida uma capacidade de carga de 2500 pessoas, com prioridade para os residentes. Em alternativa, para ver a totalidade, a solução mais próxima passa por deslocar-se à Galiza/Espanha/Catalunha. Para a escolha do melhor local sugerimos a consulta dos diversos mapas interactivos que têm surgido (por exemplo, aqui: https://eclipsefan.org/?tab=horizon), lembrando que é fundamental um horizonte oeste desobstruído, já que, sendo o eclipse ao final do dia, o Sol estará baixo, no céu - no momento da máxima ocultação, os dois astros estarão a uma altitude de aproximadamente 10°, correspondendo a cerca de meio palmo de uma mão acima do horizonte, com o braço estendido. Atenção, também, à previsão meteorológica para os locais que eleger como destino - consulte fontes oficiais e fidedignas, nos dias anteriores. A maior parte da população, no continente e ilhas, vê-lo-á, porém, sempre como eclipse parcial, ou seja, o Sol vai sendo gradualmente coberto pela Lua, mas nunca deixando de estar, em parte, visível. No Porto, em particular, a Lua ocultará 98.3% do Sol. Será uma ocultação notável mas que, apesar disso, requer enormes precauções para ser observada, caso contrário resultará em danos oculares graves e potencialmente irreversíveis. Óculos de sol, vidros fumados, vidros de soldador, filtros de cor ou dispositivos similares não são adequados à observação. Não tente, por isso, qualquer outro meio de protecção que não sejam óculos com filtro solar que cumpram o Regulamento (UE) 2016/425. Mesmo assim, note que estes óculos só são adequados para observação a olho nu, por isso nunca observe o eclipse (excepto durante a fase da totalidade) através de um instrumento óptico (telescópio, binóculo, máquina fotográfica ou outro) que não tenha filtro solar adequado para esse instrumento. As radiações visível, infravermelha e ultravioleta do Sol concentradas numa pequena área (a córnea, a retina), provocarão danos oculares imediatos. Este tipo de filtros solares pode encontrar-se em lojas de astronomia reconhecidas, não arrisque outras fontes. Cuidado também ao apontar máquinas fotográficas ou outros equipamentos, mesmo que não olhe através deles: o calor gerado em pouco tempo, concentrado pelas ópticas, pode ser suficiente para danificar os aparelhos.
Muita atenção, em particular, às crianças. Não deixe instrumentos ópticos sem vigilância permanente. A curiosidade vai ser muita e um breve momento de distração pode ser suficiente para provocar lesões oculares imediatas e graves, em particular na retina. Como estas lesões são geralmente indolores, a diminuição da visão, o aparecimento de manchas escuras no campo visual ou outras alterações visuais podem apenas tornar-se evidentes nas horas ou dias seguintes, sendo por vezes irreversíveis.
Para além do impacto visual, o eclipse pode ser uma oportunidade para explorar os seguintes aspetos sensoriais durante o fenómeno. Ao nível do tato (temperatura e vento), com a ocultação do Sol, a radiação térmica decresce, resultando numa queda percetível e rápida na temperatura do ar e, ocasionalmente, em variações na intensidade do vento. Ao nível da audição (sons da natureza), a transição súbita para a escuridão “engana” a fauna. Por isso poderá ser possível ouvir o canto de aves noturnas, o início do chilrear de grilos e o silêncio ou recolhimento de animais diurnos e insetos. Se possível, escolha um local onde seja mais propício observar esses fenómenos. Mesmo os animais de quinta podem ter comportamentos diferentes (recolher mais cedo). Por outro lado, caso o observador, em especial, as crianças, tenham alguma forma de hipersensibilidade a este tipo de alterações no meio, devem-se tomar as precauções que sabe que ajudam a pessoa a se auto-regular.
Outro aspeto a considerar durante a observação deste fenómeno é a postura adotada. Deve evitar-se manter sempre a mesma posição, em particular ao nível da coluna. Este tipo de observação poderá exigir a manutenção de uma hiperextensão da cabeça (com a cabeça inclinada para trás) por longos períodos. O ideal é adotar uma posição sentada com inclinação posterior ou deitada, se o espaço envolvente o permitir, numa cadeira ou espreguiçadeira, de modo a garantir uma boa base de apoio corporal durante toda a observação. É recomendável fazer intervalos com movimento a cada 20 minutos. Por outro lado, mesmo com a protecção ocular, não é recomendável olhar para o Sol mais do que uns segundos de cada vez. Faça pausas e olhe de vez em quando. Para mais informações, bem como para reserva de óculos adequados à observação segura do eclipse, não podemos deixar de recomendar o excelente website Eclipse 2026 preparado para o efeito pelo programa Ciência Viva. No site poderá encontrar alternativas à observação directa, perfeitamente seguras, como a projecção da imagem do Sol – uma simples câmara escura (pin hole) que permitirá o disfrute do eclipse por várias pessoas em simultâneo.Uma última sugestão: se estiver a observar o eclipse nas imediações de uma árvore, repare na sombra provocada pelas folhas; nos intervalos das sombras poderá ver a projecção do eclipse, reproduzindo-o múltiplas vezes (Figura 1). Um modo diferente e seguro, sem recorrer a mais nada além da natureza.
Julho de 2026
Catarina Mateus, PhD (Ortóptica)
Joaquim Faias, PhD (Terapia Ocupacional)
Raul Cerveira Lima, PhD (Física Aplicada à Saúde)
Foto: RCL 2025. O eclipse solar parcial de 29/03/2025 no Porto, projectado pelas folhas de um salgueiro, funcionando como câmaras escuras naturais.
